sábado, 2 de maio de 2020

Joaõzinho e o leite


Joãozinho brincava na rua de sua casa. Era uma tarde ensolarada, mas sem calor. Corria pela rua de pedras e areia, com as calças curtas batendo nas canelas magras, cheias de cicatrizes — conquistas de aventuras por campos, árvores e barrancos próximos. Vestia a camiseta de algum candidato a vereador da cidade e, nos pés, um par de havaianas presas com prego nas tiras. Um menino igual a tantos outros dos bairros comuns. Às vezes era o super-homem salvando o mundo. Outras, jogador do time do coração, marcando o gol da vitória contra o maior rival. Joãozinho não sabia nada sobre a vida e homens maus. Até que sentiu vontade de ir ao banheiro — ou talvez de beber água. Ninguém sabe ao certo. Só se sabe que ele entrou em casa. Havia um homem sentado à mesa. Antes mesmo que Joãozinho pudesse entrar direito, ele ordenou: — Ô, moleque! Vai na venda comprar leite pra mim. Alguns minutos depois, Joãozinho volta com o leite. Quase não conseguia falar. A corrida até a venda, a asma, não deixavam o ar entrar e sair do pulmões de Joãozinho. Os olhos brilhavam e a expectativa por tomar um copo de leite, aumentavam ainda mais a falta de ar. O homem não era seu pai. Seu pai havia morrido alguns anos antes. Pegou o leite e disse: — Quando eu abro o leite com a tesoura, eu divido com todo mundo. Quando abro com os dentes, o leite é só meu. Em seguida, cravou os dentes no canto do saquinho e o rasgou. Parte do leite escorreu pelo chão. O resto foi despejado num copo e bebido quase de uma vez. Joãozinho saiu da casa como um cão com o rabo entre as pernas. Até hoje, ele não conseguiu apagar esse momento da memória. Quanto ao homem — no seu velório, alguém comentou que ele parecia ser uma boa pessoa — foi apagado por alguém com doze tiros no peito.

A rua sem saída

Numa casa simples de uma rua sem saída, de um bairro da periferia, morava Juca. Trabalhava o dia todo e, à noite, estudava. Saía antes do ...