segunda-feira, 22 de dezembro de 2025

A rua sem saída

Numa casa simples de uma rua sem saída, de um bairro da periferia, morava Juca. Trabalhava o dia todo e, à noite, estudava. Saía antes do sol nascer e voltava para casa no último ônibus para o seu bairro, por volta das onze e meia da noite. Na frente da casa de Juca, na calçada, havia uma árvore de porte médio, que fazia uma bela sombra, cobrindo metade da rua. Os meninos dos arredores faziam dessa árvore o seu lugar preferido para brincar. Até que a “Galega”, apelido de uma senhora que alugava casas em frente à casa de Juca, pôs para morar numa dessas casas uma família. Logo, a rua silenciosa rompeu a calmaria ao som de pequenas, mas potentes, caixas de som, altas o suficiente para atravessar as finas paredes de madeira. Agora, a sombra da árvore, antes encontro dos moleques, passou a ser pista de dança, roda de bebedeira, cadeiras de praia espalhadas, com muita cantoria e algazarra. Na tentativa de acalmar a esposa, Juca pondera: — Daqui a pouco eles param com essa farra, é só nos primeiros dias. Numa noite, ao chegar em casa, sua mulher o recebe na porta, muito preocupada, e lhe conta que o filho mais velho saiu de casa batendo o portão ao sair, e que os homens falaram: — Ih, tá nervosinho! E zombavam dele às gargalhadas. Sem dizer nada, sob o olhar aflito da mulher e dos filhos, foi até o armário de ferramentas, pegou um facão. A árvore caiu.

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