segunda-feira, 22 de dezembro de 2025
A rua sem saída
Numa casa simples de uma rua sem saída, de um bairro da periferia, morava Juca. Trabalhava o dia todo e, à noite, estudava.
Saía antes do sol nascer e voltava para casa no último ônibus para o seu bairro, por volta das onze e meia da noite.
Na frente da casa de Juca, na calçada, havia uma árvore de porte médio, que fazia uma bela sombra, cobrindo metade da rua.
Os meninos dos arredores faziam dessa árvore o seu lugar preferido para brincar.
Até que a “Galega”, apelido de uma senhora que alugava casas em frente à casa de Juca, pôs para morar numa dessas casas uma família. Logo, a rua silenciosa rompeu a calmaria ao som de pequenas, mas potentes, caixas de som, altas o suficiente para atravessar as finas paredes de madeira. Agora, a sombra da árvore, antes encontro dos moleques, passou a ser pista de dança, roda de bebedeira, cadeiras de praia espalhadas, com muita cantoria e algazarra.
Na tentativa de acalmar a esposa, Juca pondera:
— Daqui a pouco eles param com essa farra, é só nos primeiros dias.
Numa noite, ao chegar em casa, sua mulher o recebe na porta, muito preocupada, e lhe conta que o filho mais velho saiu de casa batendo o portão ao sair, e que os homens falaram:
— Ih, tá nervosinho! E zombavam dele às gargalhadas.
Sem dizer nada, sob o olhar aflito da mulher e dos filhos, foi até o armário de ferramentas, pegou um facão.
A árvore caiu.
terça-feira, 16 de dezembro de 2025
O Último Oliúde
Jeremias chega à rodoviária apressado, procurando a plataforma. Sempre que precisava viajar de ônibus era assim: suor frio, embrulho no estômago. Bastava pensar no cheiro do óleo, nos perfumes misturados, no calor fechado, para o enjoo crescer.
Uma tortura antiga, desde criança.
Confere a passagem no bolso, já amarrotada de tanto olhar.
É ali. Ainda faltam quinze minutos.
Senta num banco duro, dividido por ferros, para não virar cama.
Encosta as costas, tenta respirar fundo. Fecha os olhos por um instante. Abre quando alguém se senta ao seu lado.
O homem chama atenção sem esforço. Chapéu, botas, bombachas. Barba longa, grisalha. Bigode grande, com as pontas viradas para cima. Um gaúcho pilchado, desses que já não se vê mais por aí.
Ele faz um leve aceno de cabeça. Pega a passagem e confere, como se procurasse alguma coisa errada.
Um homem magro, malvestido, se aproxima.
— O senhor tem fogo?
Jeremias nega com o dedo. O sujeito segue adiante, acompanhado pelo olhar do gaúcho.
— Eu fui criado na campanha, lá pros lados de Uruguaiana. Na fazenda dos Teles. Tinha plantação de fumo, alambique de cachaça. Guri já nascia montado em cavalo, tomando mate e fumando paieiro.
— Mas era fumo bom. Fumo de verdade. Não essas porcarias de hoje, cheias de veneno.
— Meu primeiro paieiro eu enrolei com dez anos. Dez. O tempo era outro. A família cresceu, a fazenda ficou pequena e eu vim pra cidade grande ainda guri.
— Sofri no começo. Aqui aprendi a fumar cigarro.
— Dois maços de oliúde por dia. Quando não tinha, eu fumava aquele “calto” de filtro branco, só até achar oliúde de novo.
— Eu chegava em casa depois do trabalho, me largava no sofá. Pegava um cigarro e acendia com um hávio que ganhei do meu pai. A única coisa que ele me deixou.
— Ficava fazendo bolinhas de fumaça. Uma… outra… só pra descansar a cabeça.
— Minha filha tinha oito anos naquela época. Já era bonita, esperta. Puxou a mãe. Hoje é doutora veterinária, estudou fora do país, casou bem com um advogado.
— Naquele dia, ela chegou perto de mim, se deitou ao meu lado e ficou olhando as bolinhas de fumaça. Eu fiz uma. Depois outra. Vi que ela tava gostando.
— De repente, ela ficou bem na minha frente, me olhou nos olhos — olhos azuis, cor de bolita — e perguntou:
— Pai, por que tu fumas?
— Antes que eu dissesse qualquer coisa, saiu correndo pra brincar.
— Eu dei uma baita tragada. Fiz mais uma bolinha de fumaça. Fiquei olhando ela subir… até desaparecer.
Nunca mais botei um cigarro na boca!
Josias Teles
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