A Moral do Xadrez
Junho 11, 2009
O jogo de xadrez é em si próprio tão interessante que não se torna necessário o desejo de ganho para induzir alguém a praticá-lo. Por isso nunca é jogado a dinheiro. Portanto, aqueles que dispoem de ócios para tais diversões, não podem encontrar outra mais inocente; e o seguinte trabalho, escrito com vistas a corrigir (entre alguns jovens amigos) certas pequenas impropriedades na prática do jogo, mostra, ao mesmo tempo, que ele pode, em seus efeitos sobre a mente, ser não apenas inocente, mas vantajoso, tanto para o vencido quanto para o vencedor.
O jogo de xadrez não é meramente um divertimento ocioso; diversas e muitas valiosas qualidades da mente, úteis no decurso da vida humana, são adquiridas e fortalecidas por meio dele, de modo a tornarem-se hábitos preparados para todas as ocasiões; pois a vida é uma espécie de xadrez, na qual temos pontos a ganhar e competidores ou adversários a enfrentar, e na qual existe uma ampla variedade de acontecimentos bons e maus, que são, em certo grau, os efeitos da prudência ou a falta dela. Assim, jogando xadrez, podemos aprender:
1° – Previsão, que olha um pouco para o futuro e considera as conseqüências que podem resultar de uma ação; pois está continuamente ocorrendo a um jogador: “Se eu mover esta peça, qual será a vantagem ou a desvantagem de minha nova situação? Que proveito pode meu adversário tirar dela para me prejudicar? Que outros movimentos posso fazer para apoiá-la e para defender-me de seus ataques?”
2º – Circunspecção, que examina todo o tabuleiro de xadrez ou cena de ação: a relação das diversas peças e suas situações; os perigos a que estão repetidamente expostas; as várias possibilidades de umas auxiliarem as outras; as probabilidades de o adversário poder fazer este ou aquele lance e atacar esta ou aquela peça; e os diferentes meios qeu podem ser empregados para evitar seu golpe e voltar contra ele suas conseqüências.
3° – Cautela, em não fazer nossos lances muito depressa. Este hábito é melhor adquirido obedecendo-se estritamente às regras do jogo, como estas; se você toca uma peça, deve mudá-la para algum lugar; se você a coloca sobre o tabuleiro, deve deixá-la ficar.
Portanto, o melhor meio será observar essas regras, pois assim o jogo se torna mais a imagem da guerra, na qual, se você se pôs imprudentemente numa posição má e perigosa, não poderá obter licença de seu inimigo para retirar suas tropas e colocá-las em maior segurança, mas deverá sofrer todas as conseqüências de sua temeridade.
E, finalmente, aprendemos através do xadrez o hábito de não nos deixarmos desencorajar pelas más aparências atuais no estado de nossos negócios; o hábito de esperar uma mudança favorável e o de perseverar na procura de recursos. O jogo é tão cheio de acontecimentos, existe nele tal variedade de reviravoltas, a fortuna dele é tão cheia de vicissitudes e com tanta freqüência, depois de contemplação, descobrimos os meios de escapar de uma dificuldade supostamente insuperável, que somos encorajados a continuar a adisputa até o fim, na esperança de vitória por nossa aptidão; ou, pelo menos, pela negligência de nosso adversário; e quem considerar que, como o xadrez oferece muitos exemplos, o êxito é capaz de produzir presunção e sua conseqüente desatenção, pela qual a perda pdoe ser recuperada, aprenderá a não ficar muito desencorajado por qualquer êxito presente de seu adversário, nem desesperar-se da boa fortuna final em face de todo pequeno golpe que receber ao persegui-la.
Que devemos portanto ser induzidos com mais freqüencia a escolher esse benéfico divertimento de preferência a outros… toda circunstância qeu possa aumentar o prazer dele deve ser considerada; e toda ação ou palavra que seja injusta… deve ser evitada, como contrária à intenção imediata de ambas as partes, que é passar agradavelmente o tempo.
Portanto, se for combinado jogar de acordo com as regras estritas, essas regras devem ser estritamente observadas por ambas as partes; e um lado não deve insistir nelas, enquanto o outro delas se desvia: pois isso não é eqüitativo.
Se for combinado não observar exatamente as rgras, mas uma parte pedir concessõe, deve ela então estar disposta a conferi-las à outra;
(…) Não se agarre àvidamente a toda vantagem oferecida pela inaptidão ou desatenção; mas mostre a seu adversário que com tal lance coloca ou deixa uma peça en prise sem apoio; que, por outro, coloca seu Rei numa situação perigosa, etc.
Por essa civilidade geral você poderá com efeito perder a partida; mas ganhará o que é melhor, sua estima, seu respeito e sua afeição; juntamente com a silenciosa boa vontade dos espectadores.
A Moral do Xadrez- por Benjamin Franklin, 1779
(Tradução: Aydano Arruda)
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